Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007

Dispersão - Mário Sá-Carneiro

Perdi-me dentro de mim 

Porque eu era labirinto,     

E hoje, quando me sinto, 
É com saudades de mim.


Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.

Na ânsia de ultrapassar,

Nem dei pela minha vida...

 

Para mim é sempre ontem, 
Não tenho amanhã nem hoje: 
O tempo que aos outros foge 
Cai sobre mim feito ontem.


(O Domingo de Paris
 Lembra-me o desaparecido
 Que sentia comovido
 Os Domingos de Paris:

 

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza, 
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).


O pobre moço das ânsias...
u, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também

Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada

Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.


Como se chora um amante,

Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projeto:
Se me olho a um espelho, erro —
Não me acho no que projeto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.


Não perdi a minha alma, 
Fiquei com ela, perdida.  

Assim eu choro, da vida, 
A morte da minha alma.


Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo


A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades 
São do que nunca enlacei.  
Ai, como eu tenho saudades 
Dos sonhos que não sonhei!...


E sinto que a minha morte —

Minha dispersão total —
Existe lá longe, ao norte, 

Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo, 
E todo azul-de-agonia

Em sombra e além me sumo.


Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...

Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas Pra se dar
Ninguém mas quis apertar
Tristes mãos longas e lindas


Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo?  UM rastro?... Ai de mim!,..


Desceu-me na alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal 
Me penetrou vagamente 
A difundir-me dormente 
Em urna bruma outonal.


Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço... 
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço,..


.....................................
.....................................
Castelos desmantelados, 
Leões alados sem juba
.........................................
.........................................





Paris, maio, 1913

 

sinto-me:
Pensado por Lucy às 13:43

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